No próximo dia 9, terça-feira, a Eletronic Arts lança – pelo que sei – o primeiro videogame baseado diretamente num clássico literário: O Inferno de Dante. Sim, sim, os roteiristas tomaram as maiores liberdades do mundo: pelo trailer acima, dá para perceber que Dante Alighieri está mais para Prince of Persia do que para pensador da Renascença; que Beatriz está mais para personagem de Haunted House; e que o texto está com uma dicção meio Resident Evil e Diablo. Mas poderia ser diferente? Já há gente no mundo protestando contra o game, pedindo a retirada de Dante do título. Junto com eles – numa estranha aliança – há os fundamentalistas religiosos, que alegam que “o inferno não é um jogo”. A lógica indica que, se ambos fossem atendidos, só pastores evangélicos e catedráticos poderiam falar das duas coisas.
Em vez de espernear, Keith Staskiewicz, colunista da EW.com, preferiu se divertir, imaginando outros livros adaptados para PS3 e XBOX (aqui). Pensei rapidamente em alguns, mas não bolei nada engraçado. Alguma sugestão?
(mais uma dica da Mariana Delfini)
A editora britânica TankBooks parece não querer desistir tão facilmente do livro-objeto – ainda que o objeto seja outro. Para os “amantes do design” (e eventuais ex-fumantes nostálgicos), lançou uma série de clássicos da literatura – romances e contos – imitando maços flip-top de cigarros. Em tudo são iguais: mesmo tamanho, o livrinho é embalado em papel alumínio por dentro. Por fora, celofane.
São vendidos individualmente (£ 8.07) ou em pack – uma lata bonitona (£ 42.23) com seis volumes: O Coração das Trevas, de Joseph Conrad; As Neves de Kilimajaro e Invicto, de Ernest Hemingway; A Metamorfose e Na Colônia Penal, de Franz Kafka; O Homem que Queria ser Rei, O Riquixá Fantasma e Black Jack, de Rudyard Kipling; Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson; e A Morte de Ivan Ilich e Padre Sérgio, de Liev Tolstoi.
A dica foi, mais uma vez, da Mariana Delfini.
Também na BRAVO! deste mês, uma crítica minha sobre o ótimo O Grande Jogo de Billy Phelan, de William Kennedy (tradução de Sergio Flaksman, Cosac Naify, 344 págs., R$ 55). Para ler o texto, clique aqui (está com um probleminha na formatação, mas logo corrijo).
Está chegando às bancas a BRAVO! de fevereiro. Na capa, Gabriel García Márquez, em Cuba. A reportagem, a propósito do lançamento de uma biografia do colombiano, discute o apoio de escritores a ditadores – Mussolini, Stálin, Hitler, Franco, além, é claro de Fidel Castro, amigo de Gabo. Assinam o material André Lahóz e Sérgio Rodrigues.
A revista traz ainda, entre outros assuntos, uma matéria sobre a linhagem de fimes baseados em diálogos e os que exploram as imagens – casos, respectivamente de Amor sem Escalas e Avatar. Na editoria de teatro, Mário Bortolotto escreve sua recuperação e seu novo projeto.
Jane Austen não deu tanta sorte no mundo dos mashups quanto seus colegas das artes plásticas (aqui). As duas capas do alto – imitando edições da Penguin – encobrem livros reais. Eles combinam as tramas dos romances Orgulho e Preconceito e Razão e Sensibilidade com, respectivamente, histórias de zumbis e de monstros marinhos. Como, não me perguntem. Foram publicados no ano passado pela americana Quirk Books.
As três de baixo, da Curiosities, não são melhores – Mansfield Park e Múmias, Emma e os Lobisomens e A Abadia de Northanger e Anjos e Demônios. Para quem se interessar, os autores das paródias são Seth Grahame-Smith, Ben H. Winters, Adam Rann e Vera Nazarian.
Parece perseguição contra a moça, não?
Fiquei devendo, semanas atrás, os trechos de Meu Tio, de Jean-Claude Carrière, baseado no filme de Jacques Tati. Dizia então (aqui) do desafio de transformá-lo em obra literária – no caso, tão ou mais arriscado que a habitual adaptação de um livro para o cinema. Os trechos abaixo correspondem a imagens dos momentos iniciais do filme (clique aqui para rever):
“Tive o azar de ser uma criança moderna, de estar à frente do meu tempo. Cresci num caixote sem graça e cinzento, parecido com as casas hoje em dia. Passeei devagar, com prudência, pelas trilhas de um jardim fechado. (…) Bem no centro, a bocona aberta, como se quisesse recolher uma chuva há tempos desejada, um peixe de aço se retorcia num tanque de pedra.”
“Toda manhã, meu pai me deixava na escola. Enquanto eu fechava a minha pasta, meu pai, na escadinha, acendia o primeiro cigarro – eram contados: doze por dia –, e minha mãe, na sua minifaxina matinal, espanava freneticamente tudo o que estivesse ao seu alcance. Desse modo, ela perseguia, todo dia, a poeira, a cruel poeira que tinha se depositado ali durante a noite.”
“Depois que a gente ganhava velocidade, às vezes eu me virava para trás. Na grade, minha mãe agitava, como um lenço de adeus, o trapo coberto de poeira. Meu pai olhava para ela pelo retrovisor, e pelo rosto eu adivinhava que ele ficava contente com o ritual, aquela poeira esvoaçante lhe desejando boa viagem. (…) Para mim essa ficou como a única imagem da minha mãe: uma silhueta coberta de náilon claro, uma estátua da dona de casa ideal.”
O vídeo é 2008, e trecho é do livro Purgatório (Companhia das Letras, 248 págs., R$ 42).
Perdoado o trocadilho, esse videozinho pode ser divertido até para quem não entende patavina de alemão. Como eu. A peça é Emilia Galotti, de G. E. Lessing (1729-1781) – muito pouco encenada por aqui, aliás. Se alguém tiver curiosidade, há uma edição publicada no Brasil, com tradução de Fátima Saadi (editora Peixoto Neto, 184 págs., R$ 26,90).
Os desenhos são, respectivamente, de Mike Allred e Scott Morse, publicados no site Hey, Oscar Wilde! It’s Clobberin’time!, aqui já mencionado. J Scott Moreserome David Salinger














